Transplantes: Dor e morte

Folha de São Paulo de 03 de setembro de 2000

__

Até pouco tempo atrás, a vida, pelo menos a terrena, acabava quando o coração cessava de bater. O início da existência é um pouco mais complexo: filósofos e cientistas ensaiaram as mais diversas respostas. Parece razoável, porém, afirmar que, em termos modernos, a vida começava com o nascimento ou, numa visão especialmente cara aos religiosos, com a concepção.

Nos últimos anos, esses conceitos deixaram de fazer tanto sentido. Pela noção de morte encefálica, por exemplo, é possível declarar alguém legalmente morto, mesmo com seu coração ainda funcionando, o que possibilita a retirada de órgãos para transplantes. Nos países em que o aborto induzido é permitido, o feto só recebe proteção legal por volta da 20ª semana de gestação.

Se essas mudanças já eram difíceis de assimilar, estudos recentes e novas demandas da pesquisa científica prometem torná-las ainda mais complexas. Nas últimas semanas, o Reino Unido se viu tomado por uma polêmica. Dois médicos sugeriram, em editorial na revista “Anaesthesia”, que os doadores de órgãos fossem anestesiados para o procedimento da retirada. Para os autores, o aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial verificado durante a cirurgia poderia ser um sinal de que o corpo sente dor. A administração de drogas analgésicas seria uma garantia adicional de que o “paciente” não estaria sofrendo nada.

Quando esse legítimo debate acadêmico deixou as publicações especializadas para ganhar corpo nos principais jornais, a “notícia” caiu como uma bomba. Se o paciente pode sentir dor, ele não está morto e, portanto, a retirada dos órgãos configuraria um atentado à vida. Autoridades britânicas temem agora uma diminuição na oferta de órgãos.

A discussão aqui se torna filosófica. O que é a dor sem consciência e sem memória? Faz sentido um conceito de dor que não pode ser percebida nem lembrada? A maioria dos médicos tende a compreender uma dor nesses termos como uma reação orgânica reflexiva, que perderia seu sentido de “sofrimento”.

Pacientes cirúrgicos anestesiados apresentam maior atividade cerebral do que pessoas com morte encefálica. Na cirurgia, seus sinais vitais exibem alterações semelhantes às verificadas nos doadores. Mesmo assim, quando acordam, não se queixam de ter sofrido durante o procedimento.

O Reino Unido foi apanhado por essa polêmica enquanto ainda tentava assimilar a notícia de que o governo pretende liberar pesquisas científicas com embriões de até 14 dias, também para fins de transplantes.

As fronteiras que determinavam o início e o fim da vida estão sendo alteradas. E num grau que coloca problemas para a capacidade do homem de elaborar sistemas éticos que ofereçam respostas a essas questões. Mesmo assim, não parece uma tarefa impossível. No fundo, trata-se de decidir até que ponto se pode dispor dos já-não-vivos e dos ainda-não-vivos para manter justamente a vida.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: