O perigo dos derrames silenciosos

Na surdina, uma artéria minúscula é obstruída e para de irrigar um grupo de neurônios, que, sem combustível, sucumbe. A princípio, o indivíduo nem se dá conta de um derrame que, como a falta de sintomas indica, é silencioso. Mesmo assim, ninguém deve julgar seu estrago inofensivo. Aos poucos, esse tipo de acidente vascular cerebral (AVC), como os médicos denominam o problema, semeia a discórdia no cérebro, podando funções cognitivas como o raciocínio.

“Ele é de cinco a dez vezes mais frequente que os derrames que apresentam sinais e sequelas na hora”, chama a atenção o neurologista Vladimir Hachinski, editor-chefe da revista científica Stroke, da Associação Americana de Derrames, que, agora, joga os holofotes sobre a versão silenciosa do mal para alertar a população e os profissionais de saúde a respeito desse perigo — mensagem que, sem dúvida, também é válida para o Brasil.

“Os AVCs silenciosos costumam ser desprovidos de sintomas porque não atingem regiões estratégicas do cérebro”, esclarece o neurologista Alexandre Pieri, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. “As áreas danificadas não estão envolvidas com as funções sensorial e motora”, completa seu colega cero Galli Coimbra, da Universidade Federal de São Paulo. Com o tempo, porém, as lesões podem se multiplicar. Ocorre uma aqui, outra acolá, e assim por diante. “Daí, com o passar dos anos, parte do cérebro fica parecida com um queijo suíço”, compara Coimbra.

O que, afinal, faz florescer esse fenômeno lento e progressivo? “A pressão alta, o diabete, o colesterol elevado, o abuso do álcool e o tabagismo”, dá Pieri a lista dos vilões. O próprio envelhecimento tem lá sua culpa. “Um estudo americano aponta que um em cada dez idosos já sofreu um AVC silencioso”, conta o neurologista Jefferson Fernandes, do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. No fundo, são os mesmos fatores que plantam um derrame avassalador. “Além disso, muitas vezes os próprios episódios silenciosos recorrentes predizem um AVC mais grave”, lembra Pieri.

Para Hachinski, o problema não é tão sigiloso quanto parece ser. “Ele pode alterar a capacidade de o indivíduo se concentrar e se organizar”, diz. Dessa forma, uma avaliação minuciosa com o neurologista abriria o caminho para surpreendê-los. O dilema é que, muito antes de haver uma devastação nos neurônios, o paciente não nota nem se queixa de nada — e a doença acaba passando despercebida até pelo médico. “Às vezes o diagnóstico é feito por acaso. O indivíduo tem uma dor de cabeça não relacionada ao problema e, na hora de realizar um exame de imagem, descobrem- se as lesões”, relata Fernandes.

O alarme disparado pela Associação Americana de Derrames pretende fazer com que o AVC sem sintomas imediatos deixe de ser tão negligenciado. “É preciso mais atenção com esse problema que pode começar antes do que pensávamos e cujos fatores de risco necessitam ser controlados ainda mais cedo, desde a juventude”, diz o professor Hachinski. Nem todo mundo, é claro, precisa correr ao consultório do neurologista e cobrar uma ressonância magnética, o exame de imagem que flagra os pequenos derrames espalhados na massa cinzenta. O cérebro só deve ser investigado quando não há queixa aparente em quem convive com a pressão arterial nas alturas ou tem um diabete duro na queda, por exemplo. Nesses casos, o especialista checa se há ou não rastros dos microAVCs.

O ataque silencioso ao cérebro deve ser desarmado quanto antes. Do contrário, a permanente poda de pencas e pencas de neurônios propicia o que os cientistas chamam de comprometimento cognitivo vascular. “Nesse quadro, o indivíduo passa a responder mais lentamente a estímulos, tem dificuldade para prestar atenção e perde a capacidade de planejamento”, explica o neurologista Paulo Caramelli, da Universidade Federal de Minas Gerais. Em algumas situações, as múltiplas lesões geram até mesmo mudanças de comportamento. “A pessoa fica apática, não tem mais iniciativa”, diz Caramelli. A boa notícia é que, ainda nesse estágio, uma aliança entre assistência médica, remédios e mudanças de hábitos pode frear o déficit cognitivo, prevenindo novas lesões.

O perigo é tudo isso passar batido e a somatória de pequenos AVCs desencadear a temida demência vascular. Daí, sim, fica quase impossível reverter a situação, já que o cérebro não conseguirá compensar a perda de tantas células. O que, então, determina o tamanho do estrago? “A extensão das lesões e as regiões que foram acometidas por elas”, responde Jefferson Fernandes. Mas lembre-se: felizmente nada acontece da noite para o dia. Há como agir antes que a cabeça fique inoperante. A respeitada revista médica Stroke já sentenciou: “O derrame é uma catástrofe que pode ser prevenida e remediada”. Independentemente de ser vítima ou não de um AVC silencioso, saiba que dá para assegurar a integridade do cérebro. Se você preza por uma mente saudável e faz o que está ao seu alcance para cuidar dela, são grandes as chances de nunca colher um derrame — barulhento ou não.

http://www.circuitomt.com.br/home/materia/14733

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