Morte encefálica: Carta do Dr. César Timo-Iaria dirigida ao CFM acusando os erros declaratórios deste prognóstico de morte

Vedada a reprodução dos comentários e da Carta. O endereço para citação, referência ou leitura neste espaço deve ser reproduzido como link ativo:

https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/13/morte-encefalica-carta-do-dr-cesar-timo-iaria-dirigida-ao-cfm-acusando-os-erros-declaratorios-deste-prognostico-de-morte/

em www.biodireito-medicina.com.br

ele é:


A missão dos médicos: Carta do Dr. César Timo-Iaria ao CFM denunciando a invalidade dos critérios declaratórios da morte encefálica e a retirada de órgãos vitais únicos feita com base nesta declaração sem o esgotamento dos recursos terapêuticos neurológicos em favor do paciente potencial doador destes órgãos. Documento protocolado no Ministério Público Federal e na CPI do Tráfico de Órgãos com a Réplica às respostas do Conselho Federal de Medicina ao questionamento técnico neurológico oposto por mais de uma centena de cidadãos brasileiros a este Órgão Gestor Médico, em junho de 2000 — e cuja resposta foi cobrada pelo MPF apenas no ano de 2003 sob insistência do advogado firmatário, com a entrega das mesmas no final daquele ano. O questionamento oposto em 2000, esclarecia como o teste da apnéia mata a maioria dos pacientes traumatizados encefálicos, com a utilização do teste da apnéia determinado no Protocolo da Morte Encefálica (Resolução CFM 1480/97).  Protocolo no Ministério Público Federal: SCA/000793/2004 de 01.03.2004.

Referências correlacionadas a esta carta:

QUESTIONAMENTO INTERPELATÓRIO AO CFM:

INTRODUÇÃO ÀS RESPOSTAS DO CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA:

RESPOSTAS DO CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA:

RÉPLICA A ESTAS RESPOSTAS COM NOVE ANEXOS E CARTAS DE AUTORIDADES EM SAÚDE:


http://www.biodireito-medicina.com.br/website/internas/ministerio.asp?idMinisterio=108

Observação: Na audiência da CPI do Tráfico de Órgãos, no dia 23 de junho de 2004, da qual participamos, o Relator da Câmara Técnica Brasileira da Morte Encefálica, membro da Academia Brasileira de Neurologia e um dos autores da Resolução 1.480/97, que estabelece os critérios declaratórios da morte encefálica no Brasil para fins de retirada de órgãos para transplantação, Dr. Luiz Alcides Manreza, estando sob compromisso em seu depoimento, declarou que esta carta do Dr. César Timo-Iaria “não foi considerada pelo CFM porque ele não era médico”. Não é verdade: O Dr. Timo-Iaria é médico, neurologista e membro fundador honorário da Academia Brasileira de Neurologia a qual pertence tanto o Dr. Manreza como o grupo de médicos a quem o CFM recorreu para tentar responder ao questionamento neurológico que estava feito por interpelantes desde junho de 2000.  Não é possível admitir que Luiz Alcides Manreza desconhecesse que o Dr. César era membro fundador honorário da Academia Brasileira de Neurologia.


Celso Galli Coimbra, OABRS 11352 – cgcoimbra@gmail.com

Dr. César Timo-Iaria
São Paulo SP, Brasil
15 de fevereiro de 2004

Conselho Federal de Medicina
Brasília DF
Senhores Conselheiros:

Sou médico, já fui neurologista e sou professor titular de Fisiologia (aposentado) da Universidade de São Paulo. Ensinei e pesquisei em Fisiologia do sistema nervoso durante 51 anos. Já fui professor da State University of New York duas vezes e ministrei mais de 200 conferências no Brasil e cerca de 20 no exterior, incluindo Argentina, Uruguai, Chile, México, Estados Unidos, Escócia, Israel, Alemanha e Itália. Fui presidente da Sociedade Brasileira de Fisiologia, da Sociedade Brasileira de Sono e da Asociación Latinoamericana de Ciências Fisiológicas. Sou presentemente membro honorário da Academia de Medicina de São Paulo e da Sociedade Brasileira de Sono e membro fundador e honorário da Academia Brasileira de Neurologia, membro da Academia Brasileira de Ciências e membro emérito da American Physiological Society. Sou, por conseguinte, físiologista de reconhecido valor no Brasil e em âmbito internacional.

Por intermédio do prof. Cícero Galli Coimbra, um dos mais importantes neurologistas brasileiros, fiquei sabendo há algum tempo de um conflito relacionado com um problema médico muito sério, a retirada de órgãos de pessoas tidas como em “morte cerebral”.

Começando pelo nome, que é errado, estou preocupado com o fato de o problema estar apenas nas mãos de clínicos e cirurgiões e não se convoquem físiologistas muito sérios e competentes para auxiliar no esclarecimento desse problema.

Pesquisas de um grupo de médicos japoneses revelaram que em pacientes com a tal “morte cerebral” a hipófise está secretando muito bem seus hormônios, o que significa que o hipotálamo e a área preóptica estão funcionando. Talvez o mais extraordinário caso a levar em consideração seja o do grande físico russo Lev Landau, que em 1962 sofreu um grave acidente de carro e ficou internado em estado muito grave. O governo russo convocou neurologistas dos principais países do mundo e todos o deram por morto.

Quando esses médicos voltaram a seus países a esposa de Lev Landau solicitou às autoridades que não desligassem o respirador. Resultado: em novembro desse mesmo ano Landau foi a Estocolmo receber o Prêmio Nobel de Física e voltou a dar aulas na Universidade de Moscou, embora com limitações.

Os principais neurologistas do mundo se enganaram redondamente com o prognóstico e a viabilidade de Landau e se houvessem desligado o respirador um grande físico teria morrido injustamente, sem dúvida por incompetência médica. Quando li um livro sobre o caso de Lev Landau pensei: “Se se tratasse de um paciente qualquer, um operário, ele teria sido sacrificado, indubitavelmente. Que injustiça! E se fosse meu pai?”.

Se a justificativa para submeter ao discutível teste de apnéia os pacientes com “morte cerebral” fosse que talvez eles ficassem em estado péssimo depois de recuperados eu até concordaria que se apressasse sua morte e retirassem os órgãos para transplantes, pois gostaria que fizessem isso comigo se fosse o caso. Dizer, entretanto, que eles estão mortos sem se realizarem muitos testes que permitissem avaliar sua viabilidade de forma muito ampla é para mim inaceitável. Acho, por exemplo, que se deveriam fazer testes para avaliar os reflexos dos baroceptores e dos quimioceptores; dever-se-ia dosar os hormônios hipofisários circulantes, o fluxo sanguíneo em vários territórios etc.


Lembremos que a administração de solução hipertônica de NaCI recupera pacientes com choque hemorrágico dado como irreversível (descoberta de um clínico-físiologista brasileiro); nos Estados Unidos as ambulâncias, presentemente, carregam solução hipertônica para aplicação imediata em caso de choque irreversível (o que, inacreditavelmente, não ocorre no Brasil). Eu “ressuscitei” três gatos que, durante experimentos que fiz, estavam aparentemente mortos, administrando-lhes solução hipertônica. Acho que o médico que fez essa extraordinária descoberta (Prof. Irineu Velasco) deveria ser convocado para ajudar a criar testes para se fazer o diagnóstico correto dos pacientes em “morte cerebral”.

Vale a pena recordar aqui que um fisiologista japonês retirou os encéfalos de gatos e os manteve congelados durante 7 anos e depois os perfundiu com soluções especiais e conseguiu, após esse tempo de separação do corpo, registrar potenciais evocados e até um verdadeiro alerta eletrofísiológico dos encéfalos.


Penso que em vez de se tratarem os pacientes com “morte cerebral” como atualmente se faz, os médicos deveriam buscar avidamente meios de toma-los viáveis, de ressuscitá-los. Só quando uma bateria de testes mostrasse que seus organismos não mais pudessem ser ativados é que se justificaria retirar-lhes os órgãos.


Afinal, essa é a missão dos médicos.

Sem mais, subscrevo-me, César Timo-Iaria Professor titular de Fisiologia

Outras referências sobre o mesmo assunto:

Artigo publicado na Revista Ciência Hoje, número 161

Expressamente proíbida a reprodução deste artigo em qualquer publicação eletrônica ou não.

Endereço deste artigo neste espaço:

https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/08/falhas-no-diagnostico-de-morte-encefalica-valor-terapeutico-da-hipotermia/

Editorial da Revista Ciência Hoje, número 161:

https://biodireitomedicina.wordpress.com/category/editoriais-morte-encefalica/page/3/

Artigo original: https://biodireitomedicina.files.wordpress.com/2009/01/revista-ciencia_hoje-morte-encefalica.pdf

https://biodireitomedicina.wordpress.com/category/editoriais-morte-encefalica/page/2/

Editorial da Revista dos Anestesistas do Royal College of Anaesthetists da Inglaterra, de maio de 2000:

https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/05/transplantes-revista-dos-anestesistas-recomenda-em-editorial-realizacao-de-anestesia-geral-nos-doadores-para-que-nao-sintam-dor-durante-a-retirada-de-seus-orgaos-se-estao-mortos-para-que-a-recomend/

Leia também no site da UNIFESP:

http://www.unifesp.br/dneuro/apnea.htm

http://www.unifesp.br/dneuro/mortencefalica.htm

http://www.unifesp.br/dneuro/brdeath.html

http://www.unifesp.br/dneuro/opinioes.htm

Revista de Neurociência da UNIFESP, de agosto de 1998:

https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/04/morte-encefalica-um-diagnostico-agonizante-artigo-de-0898-da-revista-de-neurociencia-da-unifesp/

Brazilian Journal of Medical and Biological Research (1999) 32: 1479-1487 ISSN 0100-879X – “Implications of ischemic penumbra for the diagnosis of brain death”:

http://www.scielo.br/pdf/bjmbr/v32n12/3633m.pdf

Revista BMJ – British Medical Journal – debate internacional onde não foi demonstrada a validade dos critérios declaratóricos de morte vigentes:

http://www.bmj.com/cgi/eletters/320/7244/1266

Morte encefálica: o teste da apnéia somente é feito se houver a intenção de matar o paciente

https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/11/morte-encefalica-o-teste-da-apneia-somente-e-feito-se-houver-a-intencao-de-matar-o-paciente/

Morte encefálica: carta do Professor Flavio Lewgoy

https://biodireitomedicina.wordpress.com/page/3/

A morte encefálica é uma invenção recente

https://biodireitomedicina.wordpress.com/page/4/

Morte encefálica: A honestidade é a melhor política

https://biodireitomedicina.wordpress.com/page/5/

Morte encefálica: O temor tem fundamento na razão

https://biodireitomedicina.wordpress.com/page/6/

Referências correlacionadas:

QUESTIONAMENTO INTERPELATÓRIO AO CFM:

http://www.biodireito-medicina.com.br/website/internas/ministerio.asp?idMinisterio=149

INTRODUÇÃO ÀS RESPOSTAS DO CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA:

http://www.biodireito-medicina.com.br/website/internas/ministerio.asp?idMinisterio=150

RESPOSTAS DO CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA:

http://www.biodireito-medicina.com.br/website/internas/ministerio.asp?idMinisterio=151

RÉPLICA A ESTAS RESPOSTAS COM NOVE ANEXOS E CARTAS DE AUTORIDADES EM SAÚDE:

http://www.biodireito-medicina.com.br/website/internas/ministerio.asp?idMinisterio=108

A change of heart and a change of mind? Technology and the redefinition of death in 1968

http://www.sciencedirect.com/science?_ob=ArticleURL&_udi=B6VBF-3SWVHNF-R&_user=10&_rdoc=1&_fmt=&_orig=search&_sort=d&view=c&_acct=C000050221&_version=1&_urlVersion=0&_userid=10&md5=45715d0a00629ba39456d22a891613e6

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