Bush deixa passivo ambiental que a tecnologia ainda não conseguiu resolver

Tradução de Cláudia  Viegas

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https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/08/bush-deixa-passivo-ambiental-que-a-tecnologia-ainda-nao-conseguiu-resolver/

        O avanço tecnológico na contenção da poluição das térmicas na fonte de emissões, com a melhoria dos processos de captação de cinzas, transformou-se, nos Estados Unidos, de uma promessa de solução em um novo pesadelo. A indústria, sempre atenta às inovações, tratou de dispor as cinzas para subsequente reaproveitamento em áreas como as da construção civil e rodovias, em processos de filling (preenchimento). Mas nos últimos anos, especialmente nos da administração Bush, a disposição das cinzas em locais inadequados, sem a devida estrutura de controle ambiental e sem fiscalização das autoridades ambientais, causou uma nova onda de passivos que pontilha o território americano, atingindo, hoje, uma área total equivalente a 60 campos de futebol. A presença de arsênio e chumbo nesses rejeitos é uma ameaça constante à saúde humana. Veja a reportagem da jornalista Shaila Dewan.

 

Centenas de sítios de cinzas de carvão carecem de regulamentação nos EUA

        O dique de contenção de cinzas de carvão que rompeu no final de dezembro e fez arrastar-se um bilhão de galões de resíduos tóxicos por 12 hectares no leste do Tennesse é um dos mais de 1,3 mil despejos similares  ao redor dos Estados Unidos  – a maiorias deles não regulado e não monitorado – que contém bilhões de galões a mais de cinzas voláteis e outros subprodutos da queima do carvão.

        Como o de Tennessee, a maioria desses depósitos, que chegam a 60 hectares, contém metais como arsênico, chumbo, mercúrio e selênio, que são considerados pela Agência de Proteção Ambiental ameaças a fontes de água e à saúde humana. Contudo, eles não estão sujeitos a qualquer regulamentação federal, o que, segundo especialistas, poderia ter prevenido o vazamento, e há pouco monitoramento sobre seus efeitos no ambiente das redondezas.

        De fato, as cinzas de carvão são usadas em todo o país na indústria da construção, mineração e outras. Em 2007, segundo estimativas da indústria do carvão, 50 toneladas de cinzas foram direcionadas para usos na agricultura, como melhoria da capacidade de solos em conter água, apesar de a EPA já ter advertido desde 1999 sobre os níveis de arsênico. A indústria promoveu o reúso de produtos de combustão do carvão devido ao crescimento da quantidade de produção deles a cada ano – 131 milhões de toneladas em 2007, contra menos de 90 milhões em 1990.

        A quantidade de cinzas de carvão aumentou muito devido, em parte, ao aumento da demanda por eletricidade, mas mais devido à melhoria dos controles de poluição do ar. Contaminantes e produtos residuais que antes eram liberados pelas chaminés das plantas industriais são cada vez mais capturados em forma de resíduos sólidos, amontoados em grandes pilhas em 46 Estados, perto de cidades como Pittsburgh, St. Louis e Tampa, na Flórida, e nas regiões costeiras dos lagos Erie, Michigan e do Rio Mississipi.

        Numerosos estudos mostraram que as cinzas podem liberar substâncias tóxicas capazes de causar câncer, defeitos de nascimento e outros problemas de saúde em pessoas, e podem ainda dizimar peixes, pássaros e populações de sapos na redondezas das áreas de contenção, causando problemas de desenvolvimento como anfíbios nascidos sem dentes, ou peixes com severas deformidades na espinha.

        “Seus resíduos domésticos são gerenciados com muito mais consistência do que os resíduos de combustão, disse o Dr. Thomas A. Burke, epidemiologista da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, que testemunhou os effeitos do carvão sobre a saúde antes participar de um congresso, no ano passado. “É um grande volume tão grande de resíduos, e é tão essencial ao suprimento de energia no país; tem havido basicamente uma falha sistemática na estratégia de gerenciamento de resíduos do país.”

        Enquanto a EPA tem estudado até que ponto regular as cinzas de carvão, os casos de poços de abastecimento e águas de superfície contaminados por percolações de áreas de descarte ou de uso de cinzas têm aumentado. Em 2007, um relatório da EPA identificou 63 sítios em 26 Estados onde a água estava contaminada por metais pesados desses depósitos, incluindo including tês outros da Tennessee Valley Authority (http://en.wikipedia.org/wiki/Tennessee_Valley_Authority), empresa criada pelo governo federal dos EUA, em 1993, para controle de cheias e navegação, entre outros propósitos. Grupos de defesa ambiental submeteram pelo menos 17 casos adicionais que disseram que deveriam ser adicionados à lista.

        Somente na semana passada, um juiz aprovou uma ação popular de US$ 54 milhões contra a empresa de energia Constellation Power Generation (http://www.constellation.com/portal/site/constellation/menuitem.29dbf445858512875fb60610025166a0/ ), após a mesma ter despejado cinzas de carvão por mais de uma década em uma área de areia e brita perto de Gambrills, Md., cerca de 20 milhas ao sul de Baltimore, contaminando poços. E na cidade Pines, Ind., uma vila 40 milhas a leste de Chicago, foi declarada um sítio do Superfund (http://www.epa.gov/superfund) – programa do governo voltado à limpeza e recuperação de áreas degradadas – após poços serem registrados como contaminados por cinzas jogadas em um aterro e utilizadas para capeamento de estradas em 1983.

        A contaminação pode se mover. Em Chesapeake, Va., altos níveis de chumbo, arsenic e outros contaminantes foram detectados no ano passado, na água subterrânea graças a uma obra de um campo de golfe na qual foram utilizadas 1,5 milhão de toneladas de cinzas voláteis, o mesmo tipo de cinza de carvão envolvida no vazamento do Tennessee. O campo de golfe foi aberto em 2007.

        Os requerimentos estaduais para o manuseio das cinzas de carvão variam muito. Alguns estados, como o Alabama, não regulam esta atividade totalmente, exceto por meio de permissões federais sobre descarga de águas. No Texas, a grande maioria das cinzas de carvão não é considerada um resíduo sólido, segundo uma revisão dos regulamentos do estudo por grupos ambientalistas. Não há monitoramento para águas subterrâneas nem requisitos de engenharia para indústrias que colocam cinzas no sítio, como na maioria das fábricas, diz a análise.

        A falta de regulação uniforme provém da falta de ação da EPA a respeito desta questão, que vem sendo estudada por 28 anos. Em 2000, a agência declarou as cinzas de carvão como resíduos perigosos, mas voltou atrás perante uma campanha da indústria que argumentava que controles mais restritivos poderiam custar US$ 5 bilhões por ano. (Em 2007,o Departamento de Energia estimava que iria custar US$ 11 bilhões por ano.) Naquela época, a EPA disse que iria estipular regulamentações governamentais nacionais para a disposição de cinzas de carvão como resíduo não perigoso, mas não fez isto.

        No ano passado, a agência convocou o público para comentar sobre novos dados sobre resíduos de combustão de carvão, incluindo uma descoberta de que as concentrações de arsênico às quais as pessoas estariam expostas ao beber água contaminada por cinzas poderiam aumentar em centenas de vezes o risco de contrair câncer.

        Se essas regulamentações tivessem sido adotadas, a agência poderia requerer que as fábricas dispusessem as cinzas secas em aterros controlados, considerados o método mais adequado de disposição, mas também o mais caro. Um relatório de 2006 concluiu que pelo menos 45% de sítios de disposição relativamente novos não utilizam materiais compósitos, o único tipo que, segundo a EPA, diminui a percolação de metais que causam câncer a níveis de risco aceitáveis. A ampla maioria dos velhos sítios de disposição são vedados.

        A maioria das cinzas de carvão está armazenada em locais úmidos, como o do Tennessee, quase sempre localizados em cursos d’água porque precisam absorver e liberar água. Mas os cientistas dizem que a chave para dispositivos seguros de cinzas de carvão é mantê-los longe da água, colocando as cinzas secas em aterros com coberturas, vedação e sistemas de coleta de água contaminada.

        Ambientalistas, cientistas e outros especialistas dizem que as regulamentações poderiam prevenir o vazamento ocorrido no Tennessee. Andrew Wittner, economist que trabalhava na área de resíduos sólidos da EPA em 2000, quando foi debatida a questão sobre se deveriam ser as cinzas de carvão consideradas resíduos perigosos, disse que a agência esteve perto de proibir depósitos de cinza como os de Kingston. “Estávamos prontos para sugerir que estes materiais não fossem manuseados em modo úmido, e que as superfícies existentes nas áreas de depósitos fossem drenadas”, disse.

        Se o armazenamento de cinzas de carvão é tão caro,  dizem os defensores do meio ambiente, as fábricas deveriam se esforçar para encontrar formas de reciclar as cinzas de forma segura. Especialistas dizem que alguns “usos benéficos” de cinzas de carvão podem ser assim, como a substituição de cimento por cinzas no concreto, o que faz com que metais pesados liguem-se e previne a percolação, ou como a base para estradas, onde as cinzas são convertidas em material impermeável. Mas o uso de cinzas como material de preenchimento ou sua colocação em minas abandonadas requer estudo e monitoramento intensivo, o que, segundo ambientalistas, raramente é feito de forma correta.

        A indústria adota a posição de que os estados podem regulamentar a disposição de cinzas de carvão por si mesmos e propõe um plano voluntário para eliminar algumas falhas, como o monitoramento de velhos sítios de disposição.

        “Há provavelmente a necessidade de uma abordagem de regulamentação mais abragente para as cinzas de carvão face ao que os estados têm e a nosso plano de ação”, disse Jim Roewer, diretor-executivo da Utility Solid Wastes Activity Group.

         Roewer afirmou que havia uma tendência rumo a áreas secas para a disposição de cinzas, embora essa tendência não tivesse sido identificada no relatório federal de 2006 sobre métodos de disposição.

        Ambientalistas estão céticos quanto ao plano de auto-policiamento voluntário da indústria e à capacidade dos estados de restringir os controles.

        “Os estados têm provado que não podem regular esses resíduos adequadamente, e isto está sendo visto no perigo que está ocorrendo por todos o país”, disse Lisa Evans, ex-advogada da EPA que agora trabalha em questões de resíduos perigosos para o grupo de defesa ambiental Earthjustice. “Se os estados pudessem regulamentar adequadamente a indústria, ele deveria fazer isso agora.”

        Empresas de energia estão quase sempre conscientes dos problemas de disposição de seus resíduos, disse Evans,mas elas empurram as melhorias devido ao aumento de custos.

        A Tennessee Valley Authority, que é dona da Kingston Fossil Plant, onde ocorreu o vazamento no Tennessee, tentou, por décadas fixar locais úmidos para disposição de suas cinzas. Em 2003, considerou mudar para areas secas, mas barrou em custos estimados em US$ 25 milhões, de acordo com um relatório do The Knoxville News Sentinel. Este valor é menos do que o custo de limpeza de um vazamento de cinzas na  Pensilvânia in 2005, que foi um décimo do tamanho deste último no Tennessee.

(Por Shaila Dewan, The New York Times, tradução: Cláudia Viegas, 06/01/2009)

http://www.nytimes.com/2009/01/07/us/07sludge.html?_r=1&hp

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